Emergência Climática

Brava gente que me escuta,
Eu peço a vossa atenção:
Pois o mote que me dêro
Num é brincadeira não:
É todo o nosso futuro
E das demais geração!

Pois desde os ano setenta
Que certos indicadores
Tão medindo a sobrecarga
Do planeta e seus calores
E não teve um ano só
C’a Terra livre de dores.

Tão usando e abusando
Dos recursos naturais
Tal como se fosse um poço
Infinito e sem finais
Quando na verdade a Terra
Está clamando seus ais!

E ela não clama chorando
Mas c’a fúria dos mortais
Alçando o mar em marés
Queimando tudo em sinais
Pra ver se o homem se havia
E muda seus ideais!

Pois não se come dinheiro;
Gasolina não hidrata;
Não me agasalho com plástico
E nem respiro fumaça;
Pra viver um na mansão
Precisa um monte sem casa.

É munta desigualdade
No mermo pedaço de chão
Enquanto uns arrota ouro
Outros não tem nem feijão.
E de onde vem esse ouro?
Ladruage e exploração.

Pois não há riqueza muita
Que não venha do exagero
Desse sistema demente
Que só te dá desemprego
Ou então chicóte no lombo
Por um troquim de dinhêro!

E o pobre empregado
Baba na televisão
Porque vê aquele povo
Que tem grife até no pão.
E gastam seu mêi salário
Pra comprar um tênis bão…

Um tênis réi igualzim
Aos que tem de mói na feira
Tudo feito lá na China
“Materiá de primeira”
E precisa dum navio
Pra trazer essas besteira!

Luxo, lixo, luxo-lixo!
Coisa séria e engraçada:
A embalagem das coisa
Só serve se tá fechada,
Mas depois que se acabou
Largam tudo nas estrada!

Batata que tava dêntu
A gente come todinho
Ninguém vê o conservante
Nem se tá bem salgadinho
A embalagem é de plástico,
Então parece limpinho!

Mas assim que se acabou
Parece que é uma meleca:
Tem que jogar logo fora,
Dentro do carro não presta,
Não dá pra guardar num canto.
Tem que sujar a floresta!

Coitado desse planeta
Em estado terminal
A ciênça tá dizêno
Que a situação tá mal!
Tem que arregaçá as manga
Pra não chorar no final.

Antes os jornal pregava:
Aquecimento global!
Daqui a cinquenta anos
Vai derreter o Nepal.
Mar vai esquentá tanto
Que o povo vai passá mal.

Mas os grande magnata
Dono dos mermos jornais
Não leem as suas página
Mentirosas ou reais:
A ciência só interessa
Quando gera capitais.

Se a notícia contraria
A alta produtividade
Se o negócio vai mexer
C’a tal rentabilidade,
Então melhor deixar quieto
E manter a ruindade.

“Os gases do efeito estufa
“O quê que eu posso fazer?
“Se o buraco é lá em cima,
“Vou manter meu métier:
“Lançar bem muita fumaça,
“Dejeto até num querer.”

Assim pensa o magnata,
Dono do manancial.
Como diz Murilo Mendes,
pro rico o essencial
tem nada a ver com essência
só mermo c’o capital.

Nevando até em São Paulo:
O turista acha é legal.
É como achar bonito
O mar chegando em Sobral,
Sem pensar na tsunami,
Só na venda do jornal.

E pro tal do aquecimento
Inda tem negacionista
Que quer defender o home:
“Num pode ser tão artista
“Capaz de acabar sozinho
“C’um astro terraplanista!”

Outrora as grandes nação
Resolveram intervir
No Rio, em 92
Começaro a discutir
Mas o tal do protocolo
Está faltando cumprir.

E o Brasil segue lascado
Todinho na contramão
Pois no dia em que a ONU
Decreta o fim do carvão
Diz o Ministro das Minas:
Termelétrica que é bão!

Dêxamo coisa ligada
Só prazer de consumir
Carregador na tomada
Tá prestes a explodir
E enquanto isso na mata
A hidrelétrica a zunir!

E por falar em zuada
Tem outra coisa importante:
Mermo as energia limpa
Trazem sofrência constante
Pois vá lá se aproximar
Dum ventilador gigante!
Pois além da desgraceira

Que andam fazendo no norte
Aqueles doido moinho
Que só me alembram Quixote
Tira o sossego do povo
Que inté hoje espera o dote!

Vê-se que a coisa é difícil
Desde a tal revolução
Só pode ter coisa errada
Nesse monte de invenção
Pois desde a energia elétrica
Que perdemo a noção

Da belezura da noite
Bem no meio do sertão
Lá onde não chegou poste
Mas vive meu coração
Lá onde se tinha tempo
Prum rumance e um violão.

Confundimos ser com ter
Tudo agora é consumir
E a língua, tão sabida…
Que quer dizer consumir?
O prefixo é “con”, todos
Juntos, sem ter pra onde ir.

Vão dar sumiço na terra
E esperar pelo espaço.
Muito bonito esse povo,
Deixa o planeta um bagaço,
Depois pergunta pra Nasa
Mas vai levar é balaço!

Veio até uma pandimia
Pra deixá bem evidente
Que a natureza responde
Toda mudança da gente
Basta desacelerá
Pros bicho ficar contente

Até golfinho no Tejo
Inventâro de emergir
O ar ficou mais limpinho
Coisa boa de sentir
Lá na Índia o Himalaia
Resolveu de se exibir!

Mas ô dureza aprender!
Querem voltar ao “normal”,
Buzinar, engarrafar,
Jogar lixo no sinal,
Como se essa bagaceira
Fosse mermo natural!

Para aprender a viver
No seio da natureza,
Nós já temo professor
Nativo dessa riqueza:
Pois quem mió que o indígena
Para entender da beleza

Que é viver no mêi do mato
Sem nada que desmatar!
Chama o pajé e a xamã
Pra nós sentar e escutar.
Vida não é pra ser útil,
Disse o Ailton Krená!

Precisa parar agora
Com o desenvolvimento,
E olhar um para o outro
Na paixão do envolvimento:
Sentir o amor pela terra,
Nossa casa, nosso alento.

E esta casa planetária
Começa é aqui no lar,
Na calçada, na escola,
Qualquer que seja o lugar
Onde consumamos menos
Protegendo o habitat!

Salve a permacultura!
Salve agroecologia!
Tá na hora de alembrar
Que a raiz da economia
Vem do grego oikós
Que é casa, chão, harmunia!

Seminário Boas Práticas:
Tardes de vasta emoção,
Esperançá na alegria
Pensâno a restauração
Desse mundo, vasto mundo
Do mar inté o sertão!

Poemas de “Pulsão de língua” (2021) colhidos pelo vate Diego Mendes Sousa

SILÊNCIO E VOZ

Eles dizem que o povo brasileiro

Não curte nem mergulha na leitura,

Não gosta do livro e su’aventura,

Não é à poesia hospitaleiro.

Mas eu vejo que isso não é verdade

Quando alcanço o silêncio desta aula,

Quando todo o barulho então se exala

E páginas voam: à liberdade!

Sim, eu vejo qu’isso não é verdade,

Pois nos olhos sagazes da menina

Se acende a narrativa e sua sina,

Cisma d’ainda crer na humanidade,

Vencendo todo caos e todo algoz

Quando assume a potência da sua Voz.

HAIKAI

O cheiro do tempo

um quintal frutificando

lentamente, dentro

ESQUIZOCAPITAL

Era uma vez minha terra

tinha palmeira e palmares

hoje tudo queima

e a Flor-

esta

cinza pelos ares:

cinza que cobre estrelas

fumaça enforca dores

ouro-lama afoga gente

num rio tóxico

Rio Doce

os quilombos e as aldeias

que diziam “demarcadas”

são o intermitente cenário

de guerra das bandeiradas

minha terra, mina

nem sei mais se é terra ou veneno

e tudo continua sendo

para o progresso

de São Paulo.

LÁGRIMA

o silêncio da voz que se fez lágrima

e foi

numa correnteza

COMO

…se ao poema coubesse ainda e apenas

lê-lo, com humana voz sem excesso

no ritmo puro do tempo disperso

como se houvessem raças e antenas,

numa ausência de qualquer artifício,

como se eu detrás duma cortina,

sumisse, e esta língua que imagina

já não fosse a máquina do início.

Tal como a luz do sol ou a da lua

as nuvens, os raios e tempestades

são sublime teatro-transcendência,

a Voz é meu corpo a dançar, eu nua;

língua é ruído de todas vontades,

o poema: barulho-excesso-essência.

I

Oiço uma ventania.

dentro ou num lugar não sei onde,

leva consigo algo — que não sei quê.

ou deixa, aceita, permanece, transcende

sinto esse vento de deserto,

não o calor a transbordar-me pelos poros

nem a sede a fazer-me suplicar miragens

a solidão

a fadiga

ou a perda

não há em meus cabelos terra

nem me seguem pegada

sou vejo estes areais a correr fino por meu corpo

mas oiço.

e o que sinto, se sinto

é que Deus, Deusa, se existisse, se existe

perene, passa, sequios’ e sopra.

e não há nada, entre nós,

a ser dito.

In:

http://www.domingocompoesia.com.br/2021/02/fruicao-partitura-e-ventania-estreia.html

“Pulsão de língua” no prelo e seu primeiro transcriador

Meu primeiro livro de poemas está no prelo, “Pulsão de língua”, pela maravilhosa e novíssima editora MIRADA, de Recife. ❤

Charles Wrapner, Theatermacher cubano estudando & fazendo Arte Contemporânea na Suíça, leu as provas e escolheu os mais breves para transcriar. Gratidão sempiterna et en diverses langues, amado!

15
ternura e queda
são movimento perene

ternura é uma qualidade do eterno

______________
ternura y caída
son movimiento perenne

ternura es una cualidad de lo eterno

———————
Zartheit und Sturz
sind dauerhafte Bewegung

Zartheit ist eine Qualität des Ewigen

———————
tendresse et chute
sont perpétuel mouvement

tendresse est une qualité de l’éternel

14
estes olhos e sua vontade
de anoitecer as coisas

estos ojos y su voluntad
de anochecer las cosas


Diese Augen und ihr Wille
um Sachen zu Nacht zu machen


ces yeux et leur volonté
de transformer les choses en nuit

Capitalismo de vigilância

                                                           A Maria Simões

Moeda de troca:
Seguir

Se ao menos fosse
Para quescutássemos

Mezcla de cuerpos
Afectuosos

Voces que safecten
Não números
Não K

Mas K

K son bombas que salen
Son descaminos
Pero caminos

K monista
K dialógica

Pero K

Butes que saltan
A las sirenas

But K

But ME

But US

Dansa das rezadeiras

                                                                       A Zebba Dal Farra

Mãos suadas
na pedra quente;

à frente da casa, o terreiro;
a reza da vó em direção
à goela;
o fogo no canavial cessado
                                               em linha;
— isto mata a sede, meu filho.
— aí eu masquei.

O cheiro da parede de barro,
                                               para passar;
O dedo do cego no dente doente
                                               que se quebra
                                               como vidro
                                                           e sara.

Cãs desgrenhadas desimpedem
                                               a Voz.

Pulsão da língua

A Fábio Roberto Lucas

Há verso que dura luas
para parir
clarescuras cabeleiras
ventre vindo donde

de insondável massa
duma língua pulsante
do carbono vivo
dum carvão em brasa

duma veia espêssa
de céus inumanos
da bruta natureza
de um choro infante

do silêncio místico
da matéria quântica
do equívoco da compreensão
da verdade e da visão
chispas centelham; vulvas ocitocinam

e o que sai grita:
solo
do sempre e do nada
do tudo e do nunca
tapete fértil
à noitiscura
sertão aceso
verso que dura lua
em quanto ecoa

Dinâmica de grupo

ANJO ABERTO, ANJO SECRETO

E JANELAS DE JOHARI

(dinâmica de grupo)

 

 

 

Dentro de cada um de nós habita uma singela multidão. Nessa dinâmica conheceremos melhor estes nossos Eus, nossos heterônimos, nossa festa interior, e deixaremos que outra multidão nos encontre como multidão, dando-nos a conhecer para além daquilo que é padrão, condição e condicionamento. Trata-se de um passo decisivo no longo e largo caminho para envolvermo-nos.

Nessa dinâmica, queremos olhar um pouco por nossa janela de Johari[1], o que significa também olharmo-nos através dos olhos do Outro. Tentar, ensaiar a empatia. Entender as diferenças entre nossos Eus (o aberto, o oculto, o cego, o desconhecido) é uma pista certeira no caminho para uma melhor contemplação dos outros.

Eu aberto é a nossa arena, aquilo que deixamos ver por todos os lados, por todos os circundantes. Eu oculto ou secreto é o que apenas nós mesmos sabemos de nós, escondemos, por escolha, por necessidade ou por medo. Eu cego é como os outros nos veem e nós não sabemos, a imagem que passamos sem plena consciência de como somos vistos. E o Eu desconhecido entra nas esferas do subconsciente ou do inconsciente, aquilo que nem os outros nem nós mesmos sabemos claramente sobre nós.

Vale dizer que estas aberturas e segredanças variam de ambiente para ambiente, mais ou menos familiares; variam, afinal, a partir do modo como nos colocamos à disposição do envolvimento. É com tais variações que a dinâmica a seguir gosta de mexer: quanto mais conhecermos e nos deixarmos conhecer, mais confiantes, seguros e abertos estaremos nesse ambiente: a vida.

 

Diagrama das Janelas de Johari

 

ROTEIRO DINÂMICO

 

OBJETIVOS

1. Promover a apresentação e a integração do grupo, trabalhando a empatia, a doação e o cuidado: cuidar e se sentir cuidado.

2. Refletir sobre a diferença entre o que expressamos abertamente e aquilo que escondemos dos outros. Como isso impacta no nosso comportamento em grupo.

3. Compor, ao final, um texto literário a partir desta experiência.

 

MATERIAL

Nomes de todos os participantes-dodiscentes do grupo impressos duas vezes cada (inclusive do dinamizador), para sorteio dos protegidos pelo anjo aberto e pelo anjo secreto. Caso não seja possível imprimir antecipadamente, cada participante pode escrever seu nome duas vezes, recortar e dobrar para o sorteio.

 

ROTEIRO

1. Antes de sortear os nomes dos protegidos, cada anjo deverá apresentar-se, dizendo uma característica pessoal relevante que considera conhecida por todos do grupo (seu Eu aberto/arena), e também revelar uma característica de sua personalidade que não seja conhecida pelo grupo (o Eu oculto ou fechado).

 

2. O primeiro nome sorteado será o protegido pelo anjo secreto, que só será revelado ao final do curso/disciplina/semestre.

 

3. O segundo nome sorteado será o protegido pelo anjo aberto, que revelará o seu protegido, mas não pelo nome e sim indo até ele ou ela, levantando-@, para ficarem frente a frente e:

– contemplar-se olho no olho, buscando ver através das janelas da alma;

– dizer “eu cuido de você agora e eu cuidarei de você para sempre”;

– dar um longo abraço.

 

4. Enquanto o anjo aberto e seu protegido realizam essa atividade afetiva, que tem duração indefinida, os outros membros do grupo podem contemplar a bela cena ou seguir sua apresentação, dependendo do tempo disponível para a dinâmica.

 

5. Ao longo do curso, este jogo pede que o anjo aberto escreva uma mensagem de carinho ao seu protegido e publique a mensagem em alguma rede social. Caso haja qualquer constrangimento em publicar, a mensagem pode ser lida em sala.

 

6. Uma mensagem de carinho ao anjo secreto será revelada (declamada ou cantada), apenas ao final do curso. 🙂

 

São diversas as atividades de produção textual criativa que podem ser des-envolvidas a partir dessa dinâmica:

 

a) Ensaiar um poema a partir de palavras e sentimentos que brotaram durante a dinâmica, seja em relação à própria fala, a revelação de outros colegas ou a questão do cuidado entre anjos e protegidos;

 

b) Refletir, por meio de uma carta ou de uma crônica, sobre a dificuldade de falar (em público, entre amigos, entre familiares) sobre si mesmo;

 

c) Criar personagens a partir da meditação sobre os seus próprios Eus (aberto, oculto, cego e desconhecido) e, imaginando (im)possíveis interações entre eles, contar uma estória.

[1] “A Janela de Johari trata de ilustrar o processo de dar e receber feedback. Talvez o esquema que nos apresentam Joseph Luft e Harry Ingham […] seja um bom auxílio para formarmos uma ideia clara de muitos dos nossos comportamentos, e nos ofereça alguma solução para enfrentarmos nossas dificuldades nas relações interpessoais, e fazermos de nossa participação social na comunidade uma expansão realizadora para nós e para aqueles que conosco vivem.” (FRITZEN, 2000, p. 9)

Círculos de Envolvimento

Quando um poeta-narrador se pronuncia, ele toca o todo, mesmo através de seus fragmentos de fala.

Em prosa ou em verso, a narrativa busca e faz poesia.

Poesia enquanto estado de alma, estar-sendo da mente, do espírito & do corpo: quatro dimensões de uma só existência, de um todo, tocável como música.

Alma, mente, espírito, corpo, em um acróstico tão simples, para não esquecer, tão ingênuo: A m e – c.

Qualquer semelhança com fórmulas da física moderna não será mera coincidência. A velocidade da luz no vácuo é quase a mesma do nosso pensamento-afeto, o valor constante mais variável do universo.

Amar esse corpo que carrega, no seu entorno, camadas etéreas, auras. Em tempos pós-auráticos, amar-se é amar o próprio caminho e suas pedras. Amar a própria voz, exalação simultaneamente física e espiritual desse corpo rumo a outros corpos, todo ouvidos.

Narrar é dar-se a conhecer. Em sua ancestral relação com memórias e números, narrar é contar e é saber: narrare, gnārus, cognoscere, gignōskein, gnōsis. As incontornáveis origens primitivas, cuja raiz “protoindo-europeia” ecoa sobre os oceanos, revelando nossa ancestralidade indígena, africana, muito antes dessas definições:

– Gnâ!

Gutural e gigantesca, a raiz-rizoma do próprio nome, da palavra nome; raiz-rizoma também de nascer, uma árvore ou um caule subterrâneo que só pode ser Eixo do mundo.

Conhecer é co-nascer, nascer juntos, tão juntos quanto gêmeos. Cada qual na sua hora, um parto depois o outro, uma narração depois a outra.

A aula de literatura é a aprendizagem da escuta.

Na metodologia dos Círculos de Envolvimento, o professor-dinamizador proporciona a aprendizagem da escuta das narrativas e dos poemas, escritos ou orais, abrigando os ancestrais (o cânone) no mesmo círculo que nós mesmos, envolvidos na escuta das nossas próprias narrativas e poemas, estudantes-narradores, alunos-professores, dodiscentes; leitores-autores, lautores:

– A criatividade pertence a todos. O texto (literário ou não) é a fala de alguém nem mais nem menos genial que você. Sua fala é um texto. A genialidade virá com a entrega, com a constância, em uma palavra, com o tempo.

Na aparente ingenuidade dessa afirmação reside a posição radicalmente democrática que permitirá ao jovem ter-lugar para narrar. Só a constância de uma escrita interessada (pela qual me interesso fazer porque haverá interesse de manifestar e interesse de ser escutada nos Círculos de Envolvimento) leva alguém a entender, com seus próprios olhos e ouvidos, com sua própria boca que narra e mãos que escrevem, a fluência e a potência das narrativas e dos poemas históricos e célebres. Enquanto eu não me vejo como escritor também, toda a “sacra Literatura” não passa de tábua rasa.

Só quando me vejo como escritor também e desta posição falo e escuto aos meus companheiros circulares, aos meus co-legas, entendo a literatura enquanto expressão máxima do humano na língua. Só então, entendo e gosto de literatura.

A hierarquia proposta pelo cânone, historiadores e críticos literários, academias de letras, livros didáticos e, por fim, professores da tradição, só fará sentido (sempre instável, rizomático, iridescente) quando, na experiência de tudo ler para-escrever, o dodiscente-lautor compreenda as diferentes tonalidades do universo escrito.

Ler para-escrever, no sentido de uma verdadeira pronúncia do sujeito, seu ato de escrita, gera (em si e para o outro) a necessidade e o propósito fundamental da leitura. Realizada neste movimento, a leitura dos textos será também, sem dúvida, leitura do mundo.

O texto produzido, por sua vez, é para ser lido para o mundo, e não apenas “corrigido” e engavetado.

Quando a escola parar de “corrigir trabalhos” e começar a ouvir-ler textos: revolução.

            Escrever livremente é escrever sem amarras, inclusive as amarras das enigmáticas “línguas-padrões”. O jovem poeta-narrador tem direito a todas as licenças, pois o primeiro passo é fluir na escrita, na vontade-de-dizer, destravando os condicionamentos. A aula de literatura é, sobretudo, aula de arte, e com esta deve integrar-se, inter- e transdisciplinarmente, assim como estará integrada ao ensino da própria língua, em seus usos e reflexões sobre o uso.

            Na metodologia dos Círculos de Envolvimento, o mediador saberá, a partir dos processos (fundamentais, não acessórios) de releitura e reescrita compartilhada, tratar das formalidades e convencionalismos socialmente exigidos, a depender do gênero, do contexto e das pretensões de cada texto e de cada jovem autor.

            Os livros clássicos estão aí para serem lidos, e não necessariamente dissecados. Estes já passaram por todas as revisões necessárias. E eles já atentam, cada qual a seu modo, contra a língua pátria.

            Quem é chamado a escrever livremente sente com espontaneidade o poder da leitura, sente sua necessidade e seu prazer. Entende na prática que lemos para escrevermos, assim como escutamos para aprendermos a falar, na travessia de todos os erros.

Lê-se para escrever-se.

Escrevemos para sermos lidos e para ler mais, e assim também para relermo-nos a partir das novas perspectivas despertadas pelas recentes leituras.

Quem é chamado a escrever livremente entende na práxis que ouvimos as narrativas para podermos recontá-las e reinventá-las, assim como falamos para sermos escutados, sermos ouvidos. Narramos o mundo na poesia-narrativa de nós mesmos, nesse processo espiralado de troca e de mudança, numa palavra, de aprendizagem, palavra sempre desdobrada em outra: ensinagem.

O sufixo -agem determina ação. Coragem é quando o coração age.

E o professor-mediador precisa dessa coragem para abrir a escuta às narrativas livres. Quando os alunos são chamados a escrever e a falar livremente sobre si mesmos, suas experiências, transbordam afetos e transbordam traumas, sobram sorrisos como sobram lágrimas. A aprendizagem será ainda mais que escrever, falar, ler: será a ensinagem coletiva da relação humana. Ao compartilharem suas histórias de vícios e virtudes, como toda história real, teremos um grupo de eus abertos, e não apenas uma sala de eus secretos, cegos, desconhecidos, suicidas por falta de voz.

Na sala de aula, o professor sempre esteve exposto, em risco, vulnerável. Antes ele podia mascarar essa vulnerabilidade protegendo-se com gritos, castigos ou palmatórias. Hoje, ele não pode mais. O que fazer?

A metodologia é ativa quando compartilhamos com o grupo toda essa exposição, todo esse risco e vulnerabilidade que constituem a própria vida.

A aprendizagem habita o envolvimento da expressão com a meditação. Exteriorizar para poder interiorizar mais fundo.

            A palavra é selvagem, mítica e mística. Carrega, em sua sonoridade, sabedorias ancestrais.

            O ensino padronizado da língua e suas formas de redação oficial (da burocracia ao cientificismo, passando pelo jornalismo desprovido de personalidade, dito “imparcial”) repreendem exatamente esse poderio selvagem que a palavra carrega. Selvagem no seu sentido mais distante de qualquer preconceito civilizatório, no sentido selvático, antes de qualquer colonizador aportar com sua noção doentia de progresso e desenvolvimento.

            Des-envolver é separar aquilo que estava envolto, envolvido. Rasgar o envelope. En-volto, envolvido é aquilo que pode voltar, regressar às origens, ao útero. Desenvolver-se, neste sentido, é portanto afastar-se da mãe. Raiz de uma tolice castradora, assassina, genocida que tem a ilusão de tornar-se independente da Mãe Natureza. Em uma palavra comprida e feia, tolice desenvolvimentista.

            Na escola, à medida que crescemos, somos levados a ter cada dia mais vergonha de nossa dependência em relação à mãe. Atividades de escrita narrativa como “o que fiz nas férias” é mal vista como coisa para criança pequena, “aprendendo a escrever”. E o pior é o que faz o “corretor de trabalhos”, castrando a escrita e as férias.

            Antes fôssemos sempre crianças aprendendo a escrever, a ler, a narrar…

            Na escola, à medida que crescemos, somos levados a falar cada vez menos de nós mesmos, para aprender a dissertar, a opinar sobre tudo, de preferência do modo mais impessoal possível. Paradoxalmente, quanto mais experiência temos, menos podemos falar sobre elas. O que nos ensina, sub-repticiamente, que a nossa experiência não tem nenhuma importância diante dos conteúdos científicos que precisamos “decorar”.

            Se as palavras fossem levadas a sério!… De-corar é trazer no coração! Mas eu só posso trazer algo realmente “de cór” (como o povo, sábio e poeta, ainda diz), interiorizado, meditado em mim, quando estou de corpo presente, alma-mente-espírito, razão e afeto, cabeça e coração, isto é, quando sou corpo consciente e sou também sujeito da experiência, tocado pelo que me passa e ciente da necessidade de melhorar tudo isto que nos tem passado. A “ciência sem consciência”, que Sousândrade já denunciara, não nos tem levado a qualquer forma de harmonia.

Buscando formas de harmonia no ciberespaço-tempo

Círculos de Envolvimento

Nosso gráfico é hiperbrincolagem: ele diagrama um texto multimodal no interior de uma imagem garimpada na internet, onde o artista Maasiai une, de forma em si mesma não-dualista, imagens abissais:

Vesica Piscis, intercessão iniciática da geometria sagrada, em que o perímetro de uma circunferência toca o centro da outra, representação da gênese, forma elementar de cuja continuidade em espiral surgirão a Semente (sete círculos) e a Flor da Vida (dezenove círculos), dentro das quais se originam todas as formas e proporções harmoniosas, inclusive a razão áurea.

No interior dessa intercessão sagrada, o artista insere o yin-yang (o virtual e o real) em sua forma taiji, que representa a unidade e a dualidade. “A dialética do virtual (U) e do real (A) é encontrada em um grande número de tradições filosóficas e culturais: o céu e a terra das primeiras filosofias, a transcendência e a imanência das teologias, o yin e o yang do taoísmo, o inteligível e sensível do platonismo, o numenal e fenomenal de Kant, o vácuo e os fenômenos do budismo maaiana etc.” (LÉVY, 2007, p. 133).

À imagem original de Maasiai, começamos alterando a espessura de suas linhas, retirando-lhe o traço simétrico para expressar exatamente os fluxos e as pressões que essa intercessão entre o real e o virtual sofre e emana, a cada dia com mais voracidade e feracidade, aproximando-a da ideia vigotskiana de um acoplamento assimétrico.

Hiperbrincolagem afinal, quando ao conceito de bricolage enxerta-se o n e o m brincantes, o jogo lúdico, sem o qual a postura crítica termina por perder a esperança e a generosidade necessárias; além do prefixo-enxerto hiper(textual, midiático), a não-linearidade conectiva, o texto-imagem que apresenta, sugere, indica outros textos-imagens, hyperlinks, laços, (des)autoridade compartilhada em infinita soma.

Continua… (esse texto prossegue o desenho da metodologia iniciado em 50 olhares sobre os 50 anos da Pedagogia do Oprimido)

REFERÊNCIA:

LÉVY, Pierre. Abrir o espaço semântico em prol da inteligência coletiva. RECIIS – R. Eletr. de Com. Inf. Inov. Saúde. Rio de Janeiro, v.1, n.1, p.129-140, jan.-jun 2007.